14 de janeiro de 2011

entrelaçados

Com os olhos baixos ela ignorava tudo que ele dizia. "Não posso acreditar", pensava. Ele fazia as mesmas juras de amor de antes, sem tirar ou por. Ela estava longe, a ideia de "nunca mais" lhe dava bastante medo. "Eu vou embora" e se levantou, com os olhos cheios d'água. Ele segurou seu braço, implorando para ficar. Seus olhos também se encheram d'água. Ela desabou.

O garoto já estava há muito tempo fora de si e só quando o sangue manchou a pia branca retomou consciência. "Puta que me pariu" disse baixo, colocando o dedo no nariz e encostando as costas na parede do banheiro, olhando as marcas de seu rosto refletidas no espelho sujo. Riu com sarcasmo e ironia, riu da situação que se viu naquele momento. Voltou a pia e lavou o rosto até o sangue sumir. Saiu e caminhou entre a multidão, como se ninguém mais existisse.

Ela já estava de novo em seus braços, sem explicar porque chorava. Nem mesmo ela sabia dizer o que sentia, só reconhecia um vazio dentro do peito. Preocupada. Ele passava a mão em seus cabelos, sabia o que se passava em sua cabeça, precisava ser forte e não perdê-la de novo.

Encostou-se no parapeito e acendeu o último cigarro do bolso. Cigarro emprestado, como costumava dizer, câncer parcelado. Sentia o sabor de sangue na boca. Sangue e um formigamento que já conhecia de épocas passadas. Em dias de auto-destruição, sentir seu corpo se desfazer era o que ele mais admirava na noite e nem mesmo a música ou um beijo poderia trazer mais alívio. Morrer parecia solução. Aproveitava toda a fumaça que atravessava seus pulmões quando os braços o envolveram por trás.
"Por favor, pare."

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