Com os olhos baixos ela ignorava tudo que ele dizia. "Não posso acreditar", pensava. Ele fazia as mesmas juras de amor de antes, sem tirar ou por. Ela estava longe, a ideia de "nunca mais" lhe dava bastante medo. "Eu vou embora" e se levantou, com os olhos cheios d'água. Ele segurou seu braço, implorando para ficar. Seus olhos também se encheram d'água. Ela desabou.
O garoto já estava há muito tempo fora de si e só quando o sangue manchou a pia branca retomou consciência. "Puta que me pariu" disse baixo, colocando o dedo no nariz e encostando as costas na parede do banheiro, olhando as marcas de seu rosto refletidas no espelho sujo. Riu com sarcasmo e ironia, riu da situação que se viu naquele momento. Voltou a pia e lavou o rosto até o sangue sumir. Saiu e caminhou entre a multidão, como se ninguém mais existisse.
Ela já estava de novo em seus braços, sem explicar porque chorava. Nem mesmo ela sabia dizer o que sentia, só reconhecia um vazio dentro do peito. Preocupada. Ele passava a mão em seus cabelos, sabia o que se passava em sua cabeça, precisava ser forte e não perdê-la de novo.
Encostou-se no parapeito e acendeu o último cigarro do bolso. Cigarro emprestado, como costumava dizer, câncer parcelado. Sentia o sabor de sangue na boca. Sangue e um formigamento que já conhecia de épocas passadas. Em dias de auto-destruição, sentir seu corpo se desfazer era o que ele mais admirava na noite e nem mesmo a música ou um beijo poderia trazer mais alívio. Morrer parecia solução. Aproveitava toda a fumaça que atravessava seus pulmões quando os braços o envolveram por trás.
"Por favor, pare."
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