E aqui estou, sentado de costas pra parede do banheiro. Olhando pela porta vejo o rastro de sangue que deixei no chão empoeirado desse prédio abandonado. A poeira que meu corpo removeu me mostra um chão branco. Quanto tempo faz... 5, 10 anos? Já não faço ideia. O que me preocupa agora é que eu sei que eles chegarão aqui, e meus ferimentos já não me permitem subir mais andares ou barricar as portas. Malditos. Quantas balas ainda tenho na pistola? Ótimo, três. Será que eu consigo errar minha própria cabeça mais que três vezes? Minhas mãos tremem e o sangue está deixando a arma escorregadia. Acho que nem tenho mais firmeza pra puxar o gatilho. Quero rir, mas não acho que alguém vá me ouvir gargalhar em alguns muitos quilômetros de distância, e se eu quiser decidir o modo como quero morrer é melhor fazer silêncio. Só o rastro de sangue já deve ser o bastante pra atrair aquela matilha de cães raivosos. E lembrar de como tudo isso começou...
Acho que foram só cinco meses depois que o Haiti foi praticamente isolado do mundo e ninguém sabia explicar direito o que estava acontecendo por lá. Mulheres e crianças morriam desidratados, urinando sangue, sem conseguir nem manter um biscoito no estômago. Os homens - adultos - demoraram mais pra começar a sentir os efeitos, mas não escaparam. Isolaram o país, teve gente tentando fugir á nado pelo Atlântico. Lógico que a marinha americana estava lá pra dar fim nos fugitivos. Ninguém entrava ou saia, a doença era infecciosa e ninguém sabia como agir. Nem ONU ou qualquer outra organização impediu qualquer ação pra conter que a praga se espalhasse. Em todos os lugares havia algum padre ou fanático dizendo que era a ira de Deus, até alguns neo-nazistas aproveitaram o gancho e reergueram alguns conceitos sobre a "raça superior". Besteira de todos.
5 meses depois de toda a confusão no Haiti, um caso da mesma doença apareceu no Japão. Dizem que não foi o primeiro caso, e que na verdade o governo estava tentando esconder uma epidemia havia tempos. Não deu tempo de especular muito a respeito, porque alguns países aqui da América Latina reportaram casos. As pessoas estavam morrendo em todos os cantos do mundo e ninguém sabia explicar. Nenhuma resposta. As pessoas perderam a razão, evacuaram as cidades por conta própria, foram para o deserto, em veleiros no meio do mar, se não me engano um foguete foi lançado no espaço, com alguns sobreviventes, mas nessa época eu já quase não via noticia alguma. Já não havia nenhuma instituição governamental, ou serviço - público ou privado - que você pudesse contar, e só algumas pessoas permaneceram nas cidades.
Muita coisa não podia ser explicada, como o estranho fato de que nem todas as pessoas que tinham contato com os infectados apresentavam sintomas da doença, e gente que nunca tinha saído do quarto acabava morrendo na própria cama. Parecia algo que já estava dentro de todos, só decidiu que era hora de acabar.
Eu já não tinha muita companhia antes da doença. Trabalhava como atendente em uma rede de fast food e tinha pouco - ou nenhum - dinheiro para aproveitar minha juventude na cidade grande. Queria entrar em alguma faculdade, fazer algo da vida. Antes que a epidemia chegasse a São Paulo seguia meu caminho normalmente, não havia ninguém pra me preocupar, nem eu mesmo. Em uma segunda-feira, quando cheguei no trabalho, havia corpos por todos os lados. Não sei explicar qual foi aquela sensação, estava anestesiado. Todos os meus colegas de trabalho espalhados pelo chão, com seus uniformes banhados em sangue. Um dos corpos tinha uma pistola nas mãos e, sinceramente, não consegui identificar seu rosto. Devia ser um daqueles que trabalhava comigo, nunca decorei o rosto de nenhum deles, mas aquele estaria irreconhecível até pela mãe. Essa é a arma que me acompanha até hoje, ainda tinha alguma munição nela, mas essas últimas três balas vieram junto com minha última visita á uma delegacia abandonada. O caos era tão grande que nem o massacre no fast food, nem meu assalto a delegacia jamais foram notados. Por algum motivo, eu não sofria com a doença.
Sobreviver no que sobrou da cidade foi muito fácil no começo. Com exceção do cheiro terrível que vinha da maioria das casas. Gente morta em todos os cantos, mas os edifícios comerciais eram completamente habitáveis. E dava pra fazer corridas rápidas aos supermercados e pegar algumas coisas pra comer, sem ficar muito tempo exposto a toda aquela podridão. Nunca imaginei que todos aqueles conservantes fossem me servir de algo, além de encurtar a vida das crianças. Não havia mais água, muito menos eletricidade. Eu não sentia falta. Na verdade, sentia que aquele era o mundo perfeito pra mim. Ninguém. Nada. Liberdade. Poder correr sem roupas o tempo inteiro e coisa do tipo. Emagreci e quando me olhava no espelho, parecia uma pessoa mais bonita. Ou era a falta de ver outras pessoas?
Passava os dias revirando lojas de conveniência ou destruindo janelas de prédios, quando não encontrava um carro com combustível e saia pelas ruas sem destino. Pensei em sair de São Paulo algum dia, mas aquela paz me era incomum demais, e não fazia ideia do que me esperava em outros lugares. Ah, se eu soubesse o que me esperava.
[Talvez continue.]
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