18 de agosto de 2011
A história de como Joana morreu.
Essa história deveria começar no finalzinho de 76, quando Joana - nome inspirado naquela D'arc - nasceu em um sítio afastado da cidade. Ou talvez devesse começar em 82, quando sua irmã mais nova, Alice, quase matou sua mãe durante o nascimento. Mas o começo dos problemas não foi nenhuma dessas duas ocasiões, eu suponho.
Maria, mãe das meninas e casada com Victor, era uma esposa muito submissa e tentava de todas as formas garantir que suas filhas tivessem os estudos que ela não teve. Victor também não tivera educação alguma, mas isso não lhe impedira de herdar algumas terras de seus pais. Maria sofria ao tentar conceber um filho homem no casamento, esperava que alguma das filhas arrumasse um marido e logo um neto para que essa aflição terminasse. Embora desejasse, não teve chance de ver nenhum dos anseios realizado.
Victor era descendente de espanhol e havia herdado algumas poucas terras de seus pais. Não podia culpar sua família por não lhe darem glória alguma - sua esposa e filhas eram ótimas, mas quando voltava bêbado da vila, sempre deixava marcas em Maria.
Devia ser pouco mais da metade do mês de dezembro de 89, enquanto Maria fazia o almoço que a grande tragédia - não a maior, mas a primeira - aconteceu na vida das meninas. Um ataque súbito deixou um corpo cansado e frio no chão da cozinha, sem despedida ou último olhar. Não se ouviu palavra de Victor durante meses. Joana passara a fazer os deveres da casa enquanto tentava manter Alice nos estudos. Estudo que acontecia em casa, desde sempre, e andava cada vez menos produtivo. Entre uma semana e outra, quando um dia a casa ficava menos suja, as meninas se reuniam para ler algum dos livros que a mãe havia deixado.
Sem a esposa, Victor perdeu controle das terras e em pouco tempo teve de despedir grande parte dos funcionários e vender quase toda a terra que possuía. Para as garotas, as coisas melhoravam com o tempo, Alice conseguiu uma vaga na escola e Joana conseguia confeccionar alguns bordados para as moças da cidade. Mas em uma noite onde raios partiam os céus, a fúria veio destruir o mundo das meninas. Victor passara o dia todo fora, sem ter dado notícia desde a manhã. As meninas cozinharam e deixaram a mesa pronta para o almoço, mas ele não apareceu. Prepararam a comida para o jantar em vão. Arrumaram sua cama como era de costume, mas quando chegou, Victor não quis se deitar.
Ele deveria estar mais bêbado que o comum. Ou talvez tivesse tido um dia ruim na cidade, elas já estavam acostumadas com os dias em que as coisas não iam bem. Não amarrou seu cavalo - suas condições lhe obrigaram a vender o antigo carro. As meninas brincavam na cozinha quando ele entrou esbravejando e derrubando pratos e copos. "Era para você ser um homem", gritou, puxando Joana pelo braço e jogando-a no chão. Alice desabou em prantos, gritava sem entender o que acontecia. Joana aconselhou sua irmã que fosse para o quarto, mas Alice não conseguia se mexer. Gritava e chorava, soluçando sem parar. Joana se levantou e tentou alcançar a irmã, na tentativa de a acalmar, ou protegê-la. Seu pai gritava para que calasse a boca e puxou Joana de volta para o chão. Um forte golpe na cabeça fez com que a mais velha das irmãs ficasse imóvel no chão, apenas ouvindo os gritos abafados da caçula entre os xingamentos e socos. Até que tudo se transformou em silêncio.
Silêncio e a respiração ofegante de um homem já velho e cansado. Ela queria se levantar, mas seu corpo estava fraco demais. Só conseguia pensar no pior, e por isso chorava desesperada. Ouviu passos saírem da cozinha, indo para dentro da casa. Ouviu os mesmos passos fortes voltarem da cozinha e ir para fora. Com muito esforço conseguiu se levantar e o desespero só aumentou. Um rastro de sangue seguia pela porta da cozinha, em direção a chuva do lado de fora da casa. "Alice!", chamou. Um trovão respondeu que ela não podia lhe ouvir.
Joana reuniu as forças da heroína que lhe deu nome e conseguiu seguir o rastro pela porta, através da noite escura e chuvosa. Avistou a silhueta de seu pai arrastando o corpo de sua irmã pela chuva. Tentou correr a caiu na lama, tropeçando em seu próprio corpo atordoado. Enquanto caia, percebeu que seu pai caminhava em direção ao poço. Ela precisava salvar sua irmã. Ela precisava se levantar, precisava reagir.
Victor já não pensava. Chegou ao poço e jogou o corpo frio de sua filha no chão molhado. Seu rosto já era um misto de sangue, lama e água. Nenhuma expressão, nenhum movimento, não respirava mais. Empurrou a tampa de madeira, descobrindo o poço de onde a família pegou água por tantos anos. Jogar o corpo de sua filha ali resolveria muitos problemas e evitaria ter que dar explicações. Mas Joana estava ali e faria o que pudesse para evitar que isso acontecesse.
Victor levantou o corpo imóvel de Alice sem muito esforço. Joana, que conseguira se levantar, correu em sua direção e se arremessou na direção do grande - embora velho - homem, que perdeu o equilíbrio e caiu de costas no chão, de onde não se levantou. Joana se ergueu, pela última vez, e correu para o lado da irmã, onde chamou e chorou. Chamou e chorou até que não aguentasse mais. Alice não lhe responderia nunca mais.
O que Joana havia esquecido é que aquele homem também se levantaria mais uma vez. Victor se levantou e sua fúria não havia diminuído. Joana não tinha como fugir e ele a agarrou pelos cabelos. Joana desejou que estivesse no lugar de sua irmã quando os golpes lhe atingiram e desejava que morresse afogada nas poças de lama cada vez que caia. Mas Joana ainda era uma garota forte e contra sua própria vontade sobreviveu aquele dia.
Sobreviveu, mas acordou um outro dia no porão da casa. Descobriu que era o porão por ouvir o barulho de ratos por perto, porque luz não havia quase nenhuma. Sentia o rosto ainda adormecido e a boca inchada, sabor amargo de sangue. Não conseguia mover um dos braços por conta da dor, mas conseguia se levantar. Não chamou por ajuda e só desabou em prantos quando se deu conta de que a noite anterior não tinha sido apenas um pesadelo ruim.
Ela esperou naquele lugar escuro e fétido durante o tempo que parecia durar uma vida. Sentia fome e frio. Tinha medo de que os ratos viessem lhe devorar. Sentia o medo de que jamais saísse dali novamente. A pouca luz que entrava pela fresta da porta havia sumido quando ouviu passos sobre sua cabeça. Só passos, nenhuma palavra. Devia ser Victor - aquele que já não podia ser chamado de pai. Perdeu o medo de passar o resto da vida ali no porão e passou a ter medo de que o visse novamente. Aquela noite ele abriu a porta, desceu as escadas e deixou um prato com comida no último degrau. Nenhuma palavra.
Uma macarronada fria, sem tempero algum. Uma garfo e uma faca. A faca seria afiada o bastante para cortar a própria garganta? Não queria comer mais daquela comida. Cuspia sangue as vezes. Será que se oferecesse a comida aos ratos, eles a ajudariam? Queria que a vida fosse como os contos de fadas que costumava ler com sua irmã. Alice... Alice estava morta naquele momento. Estava morta e não voltaria nunca mais. Aquilo lhe doía muito mais que os cortes e os talvez quebrados ossos. Doía mais que a fome e era mais forte que a vontade que tinha de ter morrido em seu lugar. Não havia mais nada que pudesse fazer e tudo parecia ter acontecido sem motivo algum. Adormeceu encostada em um canto. Queria conseguir sonhar.
Acordou com uma imensa dor no braço que não se movia. Estava sendo puxada por uma figura que se assemelhava a seu antigo pai. Não estava certa de quem era, pois se sentia atordoada de sono ou fome, mas conseguia sentir a dor. A dor e a força que as roupas faziam em seu corpo ao serem removidas ou rasgadas. Não conseguia pensar ou entender, sentia apenas as mãos fortes apertando seu pescoço e imobilizando seus braços e pernas. Tentava gritar, mas que forças havias para produzir algum som? A força que lhe restava produzia soluços em meio aos prantos. Sentia dores em lugares onde não costumava sentir nada. Desejava que cada suspiro fosse seu último. Até que a criatura que estava sobre seu corpo se satisfez e soltou a garota no chão, encharcada com suor. Um cheiro que lhe fazia querer vomitar. Tantas vontades em um mesmo momento. "Quem sabe você ainda possa me dar um homem... quem sabe ainda valha alguma coisa."
Victor se levantou, reergueu as calças, subiu as escadas e saiu pela porta, deixando Joana novamente no escuro. Nua, dessa vez. Não queria se mover, não queria
sentir o que estava dentro de si. Enojada com tudo que a cercava, desejava - mais que qualquer outra hora - que morresse.
Um outro dia a porta se abriu e a luz de uma lamparina iluminou parte do porão. "Cade você, menina?", a voz grave perguntava. Joana esteve esperando por esse momento durante dias, encolhida em um canto, coberta com um enxoval velho que havia encontrado na escuridão. Todo esse tempo na escuridão havia permitido que Joana enxergasse mais que seus olhos costumavam ver nos dias felizes de sua vida. Não só via as formas dentro da total escuridão como também via a maldade que cercava as pessoas do mundo. Queria que todo o mal terminasse.
Victor se aproximou de um dos cantos sombrios, apontando a lamparina e perguntando onde estava Joana. "Não adianta se esconder... não tem para onde fugir." disse, ao levantar as cobertas empoeiradas que estavam jogadas pelo canto. Não era ali que Joana estava escondida. Joana já era uma sombra á suas costas e lhe atingiu na nuca com uma pá que havia encontrado embaixo dos enxovais. As sombras haviam lhe servido de muito nesses dias que passou aprisionada.
A figura de seu pai caída e a lamparina despejando fogo sobre os objetos esquecidos no porão lhe fazia bem. Todos os amigos imaginários que Joana havia criado para sobreviver durante os últimos dias queimando em frente a seus olhos. Ver aquele monstro ali, deitado, se contorcendo para levantar lhe trouxe alívio. O alívio lhe deu a vontade que precisava para sobreviver. E ela correu em direção as escadas. Victor se arrastou, mas quando chegou ao primeiro degrau, viu a porta se fechar sobre sua cabeça. Gritou. O fogo se espalhando pelas suas costas fez com que visse a própria sombra projetada na porta, uma sombra que pedia ajuda.
Ela ficou estática do outro lado da porta, ouvindo seu pai gritar e bater contra a madeira. Joana vestia alguns trapos, cobrindo apenas o que não queria que fosse visto por seu pai. Ouvia socos na porta. "Abra essa porta! Abra essa porta ou eu te mato, sua putinha. Eu devia ter te jogado no poço com sua irmã!". Joana removeu as chaves da fechadura e caminhou em direção a porta que levava ao quintal. Seguiu pela estrada de terra, deixando para trás o lugar onde passou os piores momentos de sua vida, levando consigo todos os pesadelos que podia imaginar. Ao longo do caminho pôde ver as chamas se erguerem enquanto consumiam sua antiga vida. Era uma espécie de adeus, só esperava que pudesse esquecer de tudo aquilo.
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