De repente eu estava em seu casamento. O que é que você tinha na cabeça pra me convidar? E no que estava pensando quando aceitei? Seja como for, agora estou aqui. Cabelo grisalho, terno estranho e uma gravata vermelha. Ao contrário do que sempre imaginei, não sou eu ali no altar. Fico pensando se deveria ter vindo com meu all-star vermelho. Combinaria com a gravata, você sempre gostou. É, essa época já passou. Não me sinto bem com esses sapatos, mesmo usando um par parecido a semana toda. Que grande droga é ser grande.
Fui longe, queria tirar o pensamento desse casamento. Olha que legal, aquelas suas amigas do colégio. Sorria e acene, sorria e acene. Acho que elas nunca gostaram de mim, mesmo. Sempre achei elas meio otárias, mesmo. Faz um tempo que essa cerimônia começou, será que já passou a hora do "fale agora ou cale-se para sempre"? Talvez esteja naquela história sobre construir a casa na pedra ou na areia.
Me espanta você ter me convidado, depois de tantos anos sem se falar. E eu nem tive ninguém pra trazer comigo, tentar te mostrar que estou mais feliz que você. Não que isso me importe de verdade. Nem sei mais quem é você, tudo que mudou nesses vários anos. E tem esse desejo em mim, de te conhecer novamente. Viver aqueles tempos jovens, que não havia dor ou arrependimento. Agora no que me transformei, um homem carregado de feridas com uma consciência pesada pela quantidade de dor causou.
Quer saber? Essas roupas ficariam bem no fundo de um rio. Ou na mesa de um bar. Arrumar alguém pra jogá-las no canto do quarto. Qualquer lugar, menos aqui.
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