16 de junho de 2021

Fraquezas

 Estava deitado quando o celular vibrou.

Fazia tempos que não conversava com a família.

Durante os quarenta minutos, se distraiu algumas vezes.

Percebeu que estava com a aparência estranha, doente. Pálido.

Quando a ligação terminou, não sabia dizer sobre quais assuntos tinham discutido.

Havia perguntado como estavam? Tinha dito alguma palavra pra eles? Demonstrou o quanto sentia falta da presença deles?

Se levantou, apenas uma camisa preta no corpo. Fazia frio, mas não tinha notado até então.

Andou para a frente do espelho, onde conseguia enxergar o corpo todo.

Sentiu-se ainda mais doente. Nunca se achou uma pessoa atraente, mas parecia muito mais deteriorado.

Se aproximou, observando seus olhos bem de perto. 

Puxou as palpebras como se soubesse verificar algum sinal de problemas, alguma fraqueza ou doença.

Estava pálido, cheio de olheiras. Olhos cansados, cheio de rugas. A barba tão longa como jamais esteve. Muitos pelos brancos pela face. O cabelo cada vez mais escasso.

A idade chega pra todos, pensou por um segundo.

Ainda não conseguia se lembrar do que conversou com seus pais.

Que dia era hoje? Quinta? Quarta? Existe algum nome para o dia que vem depois do domingo, quando não há mais diferença entre os dias?

Já não sabia dizer, todo dia era o mesmo dia, parece que por anos.

Sentia dentro de si um frio estranho. Uma leve sensação de falta de ar.

Queria fugir dali. Se sentia exausto, impotente em relação em que o mundo se encontrava. Se alguém estava no controle de sua narrativa, não era mais ele mesmo.

Seu corpo mostrava todas as sequelas da negligência ao longo dos anos, somada a incerteza sobre o futuro. 

Talvez sua mente estivesse ainda pior que o físico.

Se fosse possível desaparecer por algum tempo, se desligar dessa existência por alguns minutos, que fosse.

E torcer para que tudo estivesse pelo menos um pouquinho melhor na volta.

Sabia que teria forças para suportar aquilo tudo, mas só conseguia se perguntar se valia mesmo a pena.

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